Influencers e Promoção de Apostas Ilegais em Portugal: O Que Dizem os Dados

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A Ligação Entre Influencers e o Jogo Ilegal em Portugal
Há poucos temas neste setor que me provocam tanta frustração como este. Abro as redes sociais e vejo-os: influencers com milhares de seguidores a promover casas de apostas sem licença em Portugal, com códigos de desconto, promessas de lucro fácil e zero menção aos riscos. Não é uma prática marginal — é um fenómeno com dados, dimensão e consequências reais.
O número é impressionante: 92% de todo o conteúdo de jogo online visto por cidadãos da UE em 2024 promovia operadores ilegais. 81 milhões de europeus interagiram com serviços de jogo ilegal. Portugal não é exceção a esta tendência — é parte integrante dela.
A Dimensão do Problema: Dados e Queixas
Os dados tornam difícil ignorar a escala do problema. 40% dos jogadores portugueses apostam em plataformas ilegais, e quatro marcas não licenciadas aparecem no top 15 de operadores mais utilizados no país. Estas marcas não conseguem esta visibilidade por acaso — chegam aos jogadores através de canais digitais, com os influencers como principal vetor de promoção.
Ricardo Domingues, presidente da APAJO, tem sido direto na descrição da situação: o jogo online regulado cresce cerca de 9% ao ano, estabilizou nesse patamar, mas cerca de 40% dos apostadores estão no jogo ilegal promovido por essas pessoas — referindo-se explicitamente aos influencers. A APAJO apresentou queixas contra mais de 30 influencers, mas como Domingues reconheceu, nunca foi deduzida nenhuma acusação. A sua conclusão é dura: “é caso para dizer que o crime compensa.”
O modelo é previsível. O influencer recebe uma comissão por cada jogador que se regista e deposita através do seu link ou código. Quanto mais jogadores direcionar para a plataforma ilegal, mais ganha. Não tem qualquer incentivo para mencionar riscos, verificar licenças ou preocupar-se com as consequências para os seus seguidores. É publicidade disfarçada de conteúdo, sem as obrigações legais que a publicidade formal impõe.
O que torna esta dinâmica particularmente problemática é o perfil da audiência. Os seguidores de influencers são predominantemente jovens — muitos menores de idade — e a normalização do jogo por figuras que admiram cria uma porta de entrada para a atividade que contorna todos os mecanismos de proteção do mercado regulado.
O formato é também parte do problema. Stories que desaparecem em 24 horas, publicações com linguagem codificada para evitar deteção automática, links em biografias que mudam frequentemente — os influencers adaptam-se rapidamente a qualquer tentativa de fiscalização, tornando a monitorização um jogo permanente do gato e do rato.
O Que Diz a Lei Sobre Publicidade ao Jogo
O enquadramento legal existe, mas a aplicação é onde o sistema falha. O RJO e a regulamentação subsequente impõem regras claras sobre publicidade ao jogo online: só operadores licenciados podem fazer publicidade em Portugal, as comunicações devem incluir mensagens de jogo responsável, e a publicidade dirigida a menores é proibida.
A promoção de operadores ilegais é, por definição, publicidade a entidades que não têm autorização para operar no mercado português. É uma infração à lei do jogo e pode configurar crime de promoção de jogo ilegal. Mas, como Domingues salientou, as queixas apresentadas não resultaram em acusações.
Há uma ironia que me incomoda particularmente: as restrições publicitárias ao jogo licenciado, segundo a APAJO, têm tido o efeito contrário do pretendido. Ao limitar a capacidade dos operadores legais de se promoverem, criaram um vácuo que os operadores ilegais — através dos influencers — preenchem com facilidade. Os operadores legais estão limitados por regras; os ilegais não estão limitados por nada.
O problema não é apenas legal — é também de enforcement. As redes sociais são plataformas globais, e o conteúdo produzido por um influencer português pode estar alojado em servidores noutro país, o que complica a jurisdição. Os mecanismos de denúncia das próprias redes sociais são lentos e inconsistentes na remoção de conteúdo de promoção de jogo ilegal.
Impacto nos Jovens Apostadores
Os dados do SICAD mostram que 18% dos jovens entre 13 e 18 anos em Portugal jogaram a dinheiro no último ano. São menores de idade, sem acesso legal a plataformas reguladas. E no entanto, jogam. Os canais de acesso passam, em grande medida, pelo digital — redes sociais, grupos de Telegram, canais de Discord — onde os influencers são figuras centrais.
O perfil do consumidor jovem de conteúdo sobre apostas é vulnerável por natureza: tem menos literacia financeira, menor capacidade de avaliar riscos e uma tendência para imitar comportamentos de figuras que admira. Quando um influencer com 200.000 seguidores publica um story a mostrar “ganhos” numa plataforma ilegal, está a transmitir uma mensagem implícita de que apostar é fácil, lucrativo e sem consequências. Nenhuma destas mensagens é verdadeira.
O grupo etário 18-24 anos é o que apresenta maior crescimento de novos registos em plataformas de jogo. A correlação entre a exposição digital ao jogo e a entrada precoce no mercado não é coincidência. Os jovens que começam a apostar por influência digital tendem a fazê-lo em plataformas ilegais — precisamente porque são essas que os influencers promovem — e sem qualquer familiaridade com os mecanismos de proteção do mercado regulado.
O impacto a longo prazo é difícil de quantificar mas fácil de prever. Uma geração de jovens cuja primeira experiência com o jogo acontece em plataformas sem regulação, sem limites de depósito, sem autoexclusão e sem supervisão, está exposta a riscos que o sistema regulatório foi desenhado para prevenir — mas que não consegue prevenir quando a porta de entrada é um link no Instagram.
O que me preocupa particularmente é a normalização. Quando o jogo é apresentado como entretenimento inofensivo por figuras públicas, perde-se a perceção de risco. Um jovem que vê o seu influencer favorito a “ganhar” 500 euros numa aposta (muitas vezes encenada ou seletivamente editada) interioriza que apostar é fácil e rentável. A realidade — que a maioria dos apostadores perde dinheiro a longo prazo e que 40% dos jogadores estão em plataformas sem proteção — nunca aparece nestes conteúdos.
O problema agrava-se com a normalização. Quando apostar é apresentado como entretenimento casual — ao nível de ver um vídeo ou jogar um jogo no telemóvel — os jovens perdem a noção de que estão a movimentar dinheiro real com consequências reais. A fronteira entre entretenimento digital e jogo a dinheiro esbate-se, e é precisamente nessa zona cinzenta que os influencers operam com mais eficácia.
Para contextualizar o enquadramento legal que deveria proteger estes jogadores, o guia sobre casas de apostas legais em Portugal detalha os mecanismos de regulação e as suas limitações.
Dúvidas Sobre Influencers e Apostas
É crime promover casas de apostas ilegais em Portugal?
A promoção de operadores não licenciados em Portugal configura uma infração à legislação do jogo online e pode constituir crime de promoção de jogo ilegal. Na prática, apesar de dezenas de queixas apresentadas pela APAJO, não foi deduzida nenhuma acusação formal até à data. O enquadramento legal existe, mas a sua aplicação efetiva tem sido limitada.
Como posso denunciar promoção ilegal de apostas?
Pode denunciar conteúdo de promoção de jogo ilegal junto do SRIJ, através do seu portal online. Pode também utilizar os mecanismos de denúncia das próprias redes sociais para sinalizar conteúdo que promove operadores não licenciados. A APAJO aceita igualmente informações sobre promoção ilegal e tem sido ativa na apresentação de queixas junto das autoridades.